Um Breve Histórico

É difícil precisar o momento em que a palavra “humanização” entrou em nosso vocabulário. Tudo indica ser um neologismo, surgido na língua francesa no século XIX e difundido internacionalmente após a Segunda Guerra Mundial, no contexto da revisão da desumanização produzida pelo regime nazista na Alemanha.

Em nosso meio, o termo começou a ganhar grande destaque na virada deste século, quando começou a ser amplamente usado no âmbito da saúde.

A grande revolução científica e tecnológica pela qual passou a medicina na segunda metade do século XX trouxe avanços inegáveis no processo diagnóstico-terapêutico e nas abordagens preventivas em saúde, porém, já nas suas últimas décadas, muitos observadores, teóricos e especialistas alertavam para o efeito desumanizador desta “revolução”. Desde então, passou-se a ponderar o quanto as instâncias e meios científicos e tecnológicos, aliados ao processo de massificação e racionalização de mercado do cuidado em saúde, foram se interpondo ao vínculo estritamente humano entre médico e paciente que fundamentou a medicina desde suas origens, enfraquecendo-o.

Frente a esse processo progressivo de desumanização urgia-se propor medidas humanizadoras ou re-humanizadoras da medicina. Neste contexto, o termo humanização, a princípio utilizado no terreno analítico-acadêmico, passou a ser adotado nas instâncias administrativas e políticas, associado tanto a iniciativas de gestão pública e privada, quanto em projetos que acabaram por redundar em políticas públicas adotadas em todas as esferas governamentais, sendo o melhor exemplo disso a PNH, Política Nacional de Humanização, que vigorou no Brasil entre 2003 e 2016, e que definia diretrizes para a humanização do serviço e do cuidado em saúde no âmbito público.

Paralelamente e em consonância ao que se procurava implementar no âmbito da gestão, o tema da humanização entrou como propósito e meta das propostas educacionais em nível superior, principalmente na área da saúde, onde a formação de um profissional da saúde humanizado aparecia como um dos objetivos principais.

Influenciadas e norteadas pelas políticas e instituições públicas, assim como sensíveis às demandas do próprio mercado, não demorou para que a iniciativa privada na área da saúde incorporasse a Humanização como um valor e passasse a considerá-la como um objetivo e uma meta na oferta de seus serviços no âmbito clínico. E assim, já na primeira década do nosso século, inúmeras instituições privadas da área da saúde apresentavam importantes projetos e programas de humanização, voltados tanto para a melhoria do cuidado com o paciente, quanto para a melhoria da qualidade de vida dos próprios profissionais colaboradores.

Sendo pensadas e geridas cada vez mais como empresas economicamente sustentáveis e lucrativas e, portanto, adotando procedimentos de gestão próprios dos outros setores de produção e prestação de serviços para o mercado, os hospitais e empresas da saúde em geral ajudaram a difundir o conceito de humanização que, por efeito de retro-influência, passou a ser adotado como valor e meta nas empresas de maneira geral, para além do âmbito estrito da saúde. Percebendo que o processo de desumanização do trabalho e da vida não se restringia ao universo dos hospitais, mas que se fazia sentir com seus efeitos nocivos, patologizantes e prejudiciais até na esfera da lucratividade, o mundo corporativo, rapidamente foi se dando conta que a humanização apresenta-se como uma necessidade urgente.

Assim, de maneira progressiva e marcante, o termo humanização vai ganhando espaço e força no mundo empresarial, já sendo adotado enquanto valor a ser incorporado e processo a ser desenvolvido no âmbito da gestão de pessoas. Entretanto, não é incomum que a generalização de um termo ou um conceito num determinado meio ande acompanhado de uma tendência à banalização. E aqui, a nosso ver, não se verifica uma exceção à regra. Efetivamente, a utilização quase indiscriminada do termo humanização no âmbito corporativo (como aliás em outros âmbitos) tem se dado sem a devida compreensão do que esta palavra realmente significa.

Usos e Abusos do Termo Humanização

Noções genéricas, carregadas de bons sentimentos e boas intenções, porém escassas de fundamento epistemológico sólido são as que parecem prevalecer na significância do uso do termo “Humanização” no universo empresarial. Tal perspectiva rarefeita do conceito de humanização leva a uma abordagem rasa e antropologicamente equivocada.

No contexto do senso comum, assim como nos significados que se podem encontrar na maioria dos dicionários físicos e on line da nossa língua, o termo “Humanização” associa-se normalmente com o “ato ou efeito de tornar-se benévolo, gentil ou mais sociável”. Analisando boa parte das propostas de “humanização” oferecidas não apenas no ambiente da saúde, mas no mundo corporativo em geral, verifica-se uma predominância deste sentido mais instrumental do conceito. “Humanizar” significa tornar os colaboradores e funcionários mais gentis, sociáveis, educados, visando incrementar o grau de empatia na relação com os clientes, o que, comprovadamente, traz grandes benefícios, aumentando as vendas e a lucratividade.

Nesta mesma perspectiva, pode-se inserir aquelas propostas de humanização que privilegiam a adequação dos ambientes de trabalho, visando a criação de espaços mais acolhedores e confortáveis, incluindo, por exemplo, salas de “descompressão”, “relaxamento”, munidas de sofás, pufes e até vídeo games.

Indo além, já são muitas as empresas que além de espaços, oferecem aos seus colaboradores atividades promotoras de bem-estar físico e mental, como yoga, meditação, mindfulness, o que também parece refletir diretamente no aumento da produtividade e do nível de felicidade.

Sem negar a validade, importância e efetividade de todas essas ações humanizadoras no contexto corporativo, constatamos, ao longo de muitos anos de pesquisa e trabalho empírico, que tal perspectiva “técnico-funcional” de humanização, se não deixa de trazer inegáveis contribuições e resultados positivos, à larga se mostra, entretanto, insuficiente e problemática. Isso porque, essa abordagem parte de uma concepção antropológica limitada, que supervaloriza as dimensões cognitivas e comportamentais do ser humano, desvalorizando as afetivas e reflexivas. Assim, se num primeiro momento é possível verificar uma mudança significativa no comportamento dos destinatários das ações humanizadoras e identificar uma elevação nos índices de qualidade de vida e satisfação, o “efeito” humanizador tende, em pouco tempo, a se dissolver e, em alguns casos, como descrevíamos atrás, a gerar consequências adversas e até contrárias.

Se se pretende operar um efetivo processo de humanização, com resultados transformadores a longo prazo, é preciso adotar uma nova perspectiva antropológica, diferente daquela que predomina atualmente e que tende a considerar o ser humano como uma projeção das nossas próprias criações. Sim, pois ingenuamente encantados com as realizações científicas e tecnológicas dos últimos tempos, em especial no âmbito da cibernética e da inteligência artificial, tendemos a considerar que nossos cérebros (nossa maneira de pensar, de ser) sejam como os das máquinas que construímos. Desta forma, se hoje é possível encontrar um meio de realizar praticamente qualquer operação por meio da programação dos cérebros artificiais, porque não encontrar processos igualmente eficazes no âmbito natural? Teorias e propostas como as da Programação Neurolinguística e outras semelhantes, na esfera das Neurociências e da Biopsicologia são um exemplo muito eloquente desta crença. Nesta linha, assim como acredita-se ser possível “reprogramar” certos hábitos e procedimentos cognitivos tais como velocidade de leitura e aquisição de novas habilidades intelectuais, imagina-se que, da mesma forma, seja possível “incutir” comportamentos mais “humanos” nas pessoas, através de procedimentos de treinamento e “reprogramação”. Não é à toa, portanto, que em muitos lugares onde se adota esse ideal, fala-se, quase que instintivamente, de “Programas de Humanização”. Por detrás dessa terminologia está a crença (muitas vezes inconsciente, claro) de que é possível humanizar algoritmicamente.

Eis aqui o cerne daquilo que chamamos atrás de equívoco antropológico. Se nossos computadores expressam nossa imagem e semelhança, isso não significa que seus cérebros se identificam com os nossos. Gostemos ou não, somos muito mais complexos que os mais complexos dos nossos computadores. Apresentamos, por uma lado, muito mais “defeitos” e “limitações” do que eles – no que diz respeito justamente às operações algorítmicas – porém, por outro, possuímos características e capacidades –  principalmente no âmbito dos afetos, das intuições e dos sentimentos – que são e parece que sempre serão irreprodutíveis na dimensão da inteligência artificial. E é justamente essa dimensão dificilmente programável e controlável que nos faz maiores e diferentes das coisas magníficas que criamos e que nos torna insuperáveis, enfim, que nos faz humanos. Portanto, pensar a humanização numa perspectiva algorítmica e programável é algo não apenas ilusório, mas também equivocado. A humanização deve ser pensada numa perspectiva não algorítmica, mas hermenêutica.

A Humanização numa Perspectiva Hermenêutica

A hermenêutica, hoje conhecida como um ramo da filosofia, ligada à teoria da interpretação, apareceu na Tradição Ocidental como um método de interpretação de textos clássicos, especialmente a Bíblia. Na abordagem hermenêutica o código linguístico é visto desde uma perspectiva simbólica, onde a palavra e o texto podem ser interpretados de várias formas, não havendo uma explicação correta e definitiva. Filósofos como Wilhelm Dilthey, Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur, dentre outros, adotaram e desenvolveram a hermenêutica moderna em várias dimensões, porém, mais do que explorar toda a complexidade deste método de conhecimento, o fundamental para os nossos propósitos aqui é destacar a sua pertinência enquanto meio de compreender tudo aquilo que diz respeito ao humano e, claro, ao fenômeno da humanização.

Contrastando com a perspectiva algorítmica de base binária, onde os fenômenos são apenas “zero” ou “um”, na abordagem hermenêutica pode-se considerar não apenas “zero” ou “um”, mas também “zero” e “um” ao mesmo tempo e uma infinidade de alternativas variadas. Ou seja, de acordo com a hermenêutica, ao se estudar o fenômeno humano, estamos lidando com uma realidade ambivalente, contraditória, aberta, como pontua Paul Ricoeur, em sua Teoria da Interpretação. Neste sentido, postular a possibilidade de “programar” os seres humanos, mesmo que para objetivos nobres, “humanizadores”, apresenta-se não apenas como uma ilusão, mas também como equívoco.

Dimitri Karamázov, personagem de Fiódor Dostoiévski, em certo momento da novela Irmãos Karamázov, ao conversar com seu irmão, Aliocha, desabafa: “Não, o homem é vasto, vasto até demais; eu o faria mais estreito.” E, efetivamente, o ser humano parece ser tão vasto e contraditório que muitas vezes isso nos assusta e desconcerta. Se nos fosse dado recriar a nós mesmos talvez fizéssemos como Dimitri Karamázov e nos faríamos mais “estreitos”, mais “controláveis” e “previsíveis”, à medida das coisas que criamos de acordo com nossa razão fria e algorítmica. No entanto, gostemos ou não somos assim: esse feixe de contradições e enigmas, “terrível e indefinível”; realidade onde “os extremos se tocam e todas contradições convivem.”

Por outro lado, ainda acompanhando a percepção extremamente aguçada e profunda deste verdadeiro “perito em humanidade” que é Fiódor Dostoiévski, ao mesmo tempo que “vasto e contraditório” o ser humano é também “insuficiente”. Ou seja, para ser humano não basta ter nascido humano, é preciso de alguma maneira “conquistar” a sua própria humanidade. Ser humano, portanto, não pode ser entendido como uma simples condição, mas antes como um devir, como um verdadeiro processo de realização que nunca se completa definitivamente.

Humanização: um Compromisso com a Excelência e a Felicidade

Essa ideia do ser humano enquanto devir, enquanto processo, presente não apenas em Dostoiévski, mas em diversos outros autores igualmente argutos e profundos como Guimarães Rosa (onde essa imagem do humano também está associada com o ir sendo e se fazendo na travessia) ecoa, por sua vez, uma concepção muito mais antiga e essencial da Tradição Ocidental: a dos gregos da Antiguidade que, desde os tempos homéricos, identificavam a noção de ser humano com o movimento de tornar-se humano. Para os gregos, começando por Homero, passando pelos poetas trágicos e chegando em Sócrates, Platão e Aristóteles, a humanidade está indelevelmente associada com a imagem da excelência, da virtude, que eles denominavam arete. Nesse sentido, o ser humano para os gregos não é efetivamente uma condição, mas um thelos, um ideal, uma meta a ser alcançada. Identificada com a ideia de Bem, de Belo, de Virtude, o humano é assim não apenas ponto de partida, mas, principalmente, ponto de chegada: objetivo a ser alcançado – ainda que estes grandes idealistas soubessem claramente que tal objetivo divino nunca pudesse ser plenamente alcançado no tempo da vida corporal. Assim, ainda que não se possa encontrar efetivamente o termo “humanização” no vocabulário poético e filosófico dos gregos antigos (como tampouco entre os latinos, herdeiros da antropologia helênica e cofundadores da Civilização Ocidental) a sua noção é perfeitamente identificável e serviu como referencial para o sentido que tal palavra assume em autores modernos como, por exemplo, Dostoiévski.

Neste contexto, portanto, humanização quer significar o processo que torna o homem mais humano, que o “torna mais próximo daquilo que ele deve ser”. E o que ele deve ser? Ora, simplesmente mais: mais forte, mais corajoso, mais experiente, mais sensível, mais inteligente, mais generoso, enfim, mais virtuoso, que na perspectiva humanística clássica está associado com o Bem e o Belo. E a consequência deste movimento, deste esforço por ser mais, por ser melhor, seria, segundo Aristóteles, a felicidade. Assim, nesta perspectiva humanística, a humanização pode ser vista como o próprio caminho para uma vida boa, bela e feliz – em suma, para uma vida saudável (no sentido mais amplo e profundo da noção de saúde)

Para se Humanizar é preciso sair da zona de conforto

Esta noção da humanização enquanto processo de progressiva ampliação parece encontrar uma de suas formulações mais felizes na frase que Montesquieu, em seu tratado sobre O Gosto, usa para descrever esse movimento que vimos caracterizando: “ampliação da esfera da presença do ser”. Para o filósofo francês do século XVIII, o homem se humaniza na medida em que vai ampliando suas experiências sensoriais, afetivas, cognitivas e relacionais. Para ser humano estar vivo não basta, é preciso existir, ou seja, realizar experiências, ampliar o campo de visão, de sensações, de sentimentos, de pensamentos, de conhecimentos e então ir realizando a integralização crítica de todas essas experiências na formação da consciência e do gosto. Por isso, para que haja humanização é preciso que o homem saia, que ele ultrapasse os limites impostos pela natureza, pela família, pela sociedade. Montesquieu considerava a viagem como um meio privilegiado para a realização deste processo de ampliação do ser que caracteriza a humanização. A viagem, segundo Montesquieu, amplia os horizontes, desloca a perspectiva, o ponto de vista do sujeito, levando a olhar o cotidiano a partir do inusitado e do estranho, do alheio. Essa ampliação da experiência dos sentidos, dos afetos e da inteligência que as viagens proporcionam é a principal base para a ampliação da esfera do ser.

Essa concepção que associa o processo de humanização com a experiência de saída e viagem reflete, por sua vez, a própria noção de realização, de conhecer-se a si mesmo e tornar-se o que se deve ser presente nas narrativas caracterizadas pela jornada do herói. Na mais antiga delas, base e fundamento para todas que vieram depois na Civilização Ocidental, a Odisseia de Homero, conta-se a história de um herói que depois de haver saído e vivido muitas aventuras busca o retorno para casa – Odisseu (em grego) ou Ulisses (em latim) – e também, paralelamente, a história de seu filho, Telémaco, que saí em viagem em busca do seu pai ausente. Em ambas as trajetórias, daquele que volta e daquele que sai, vislumbra-se, de forma icônica e arquetípica, o processo de humanização enquanto processo de ampliação da esfera do ser – o ir tornando-se cada vez mais humano, na medida em que se vivencia as experiências que as viagens de ida e de retorno possibilitam.

A imagem da saída, de romper as barreiras, de ir do estreito para o largo, do limitado ao amplo, apresenta-se associada com o fenômeno da humanização não apenas no movimento de desenvolvimento biológico e psicológico – nascimento (sair do útero), crescimento (ampliar as experiências sensoriais), amadurecimento (ampliar o conhecimento, sabedoria) – como em praticamente todas as grandes narrativas da humanidade que tratam direta ou indiretamente do tornar-se humano. Assim, todo movimento essencialmente humanizador se apresenta como uma verdadeira aventura; uma viagem que se inicia com uma experiência interpelativa e que prossegue, em meio a desafios, perigos, dores e também a prazeres, êxtases e descobertas, que na sua mescla e combinação, vão compondo o ser humano no encontro consigo mesmo e na realização do seu ethos.

Humanização como Resultado da Experiência Estética

De acordo com Montesquieu, estas viagens que possibilitam a ampliação da esfera da presença do ser não devem ser entendidas apenas no sentido físico, material do termo. Segundo o filósofo, toda experiência estética – experiência que nos desperta e nos tira de nós mesmos – não deixa de ser ela mesma uma viagem. Assim, tanto quanto uma excursão a algum lugar longínquo e exótico, a fruição de uma obra de arte ou a leitura de um bom livro de literatura podem provocar efeito semelhante e, em alguns casos, ainda mais mobilizadores ou humanizadores que uma viagem real.

Nesse sentido, Montesquieu faz eco, novamente, à percepção Antiga e Clássica que associava a experiência estética com a humanização. Já no pensamento arcaico, de fundamentação mítica, o ser humano padecia de uma insuficiência ontológica: o esquecimento. Criados à imagem e semelhança dos deuses, os seres humanos se viram tão parecidos àqueles que acabavam se esquecendo de que eram criaturas mortais. Assim, inflados de soberba, muitas vezes acreditavam-se deuses e alçavam-se a realizações e alturas que os excediam, experimentando inevitavelmente um destino trágico. Humilhados e de orgulho ferido, acabavam novamente esquecendo o seu verdadeiro ethos e passavam se comportar como animais, com quem compartilhavam parte de sua natureza. Desta forma, condenados a viver hora mais alto do que poderiam, hora mais baixo do que deveriam, os seres humanos – anthropos, cujo termo no grego arcaico deriva da mesma raiz da palavra esquecimento – esses grandes esquecedores precisavam ser constantemente lembrados sobre quem eram. De acordo com Píndaro, poeta grego do século VI a.C., tal tarefa ficou à cargo das Musas (aesthesis, em grego), filhas de Zeus com Mnemosyne, a deusa da memória, que, conforme o seu próprio nome evoca, tinham a missão de despertar e lembrar os seres humanos do que eram e qual o seu verdadeiro ethos – seu verdadeiro lugar no cosmos. E não é à toa que as Musas (nove, segundo Píndaro) estão normalmente associadas às artes, pois é justamente através da experiência estética (aesthesis = despertar) promovida pela arte que o ser humano se lembra.

Essa relação intrínseca entre experiência estética e humanização, entre estética e ética, perceptível já nas primeiras narrativas da história da humanidade, é retomada e desenvolvida pelo pensamento filosófico da Antiguidade e chegou até a Modernidade  através das várias vertentes das tradições humanistas, sobrevivendo, ainda que de forma marginal, até nossos dias. A partir da nossa experiência empírica com o projeto da Responsabilidade Humanística foi possível constatar na prática, de forma exemplar, aquilo que as narrativas míticas e filosóficas já apontavam: o ser humano, vasto e insuficiente, para realizar-se e tornar-se o que ele deve ser, para, enfim, humanizar-se, tem, necessariamente, que passar pelo processo de ampliação da esfera do seu ser, em todas as suas dimensões, afetiva, intelectiva e volitiva, e, para tanto, tem de ser despertado, lembrado e mobilizado por uma experiência estética que ao afetá-lo, o leve a refletir e, ao refletir, o leve a encontrar o humano e a si mesmo no humano, gerando, por fim, um movimento de transformação; uma transformação que redunde em ser mais e melhor; em ser mais humano. Por fim, todo esse processo de humanização é aquilo que de fato pode trazer aquilo que chamamos de saúde, felicidade e sentimento de realização e satisfação, que está na base dos anseios humanos.

É essa, pois, a humanização a que se refere os grandes poetas, filósofos e humanistas ao longo da história. É essa a humanização que efetivamente transforma e que, ao afetar as pessoas acaba por impactar nos ambientes em que vivem e trabalham essas pessoas, tornando-os mais humanos. É esta, pois, a humanização efetiva que se deve propor e buscar no ambiente corporativo.

Dante Gallian
É autor de livros sobre história, memória, humanização, cultura e leitura, com destaque para A Literatura como Remédio: os clássicos e a saúde da alma, publicado em 2017 (editora Martin Claret).
Graduado em História, o professor Gallian é mestre e doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com pós-doutoramento pela EHESS.