Marcia Neder, em sua palestra no CONARH chamada “Qual é o tesouro de talentos escondido atrás da cortina de preconceito?”, nos conta que existe um tesouro de talentos escondido atrás de uma cortina negra de preconceitos. Esse tesouro está sendo ignorado pelas empresas nessa era da transformação.

Ela abre sua palestra no CONARH dizendo que existe um tesouro escondido atrás da cortina negra da invisibilidade. É a geração baby boomers, nascida no pós-guerra, entre 1945 e 1964. Esta é uma geração privilegiada que viveu as maiores transformações ocorridas na história da humanidade, na segunda metade do século 20. A revolução na saúde, com as vacinas e os antibióticos, a revolução tecnológica, o maior acesso à educação, o surgimento da Internet, a comunicação global, a diluição das fronteiras políticas e do conhecimento.

Essa geração é tão sortuda que também teve a chance de viver a mudança demográfica por que passa o Brasil, que deixa de ser um país jovem para ser velho em velocidade espantosa.

Os países europeus e o Japão passaram por esse processo em várias gerações. Nós estamos vivendo esse tsunami em apenas uma geração.

Na metade do século 20, a expectativa de vida no Brasil era de 60 anos. Hoje, é de quase 80, sobretudo para as mulheres, que têm pelo menos mais oito anos de vida em média que os homens.

Marcia chama a atenção dos congressistas no CONARH de que são as mulheres as estrelas dessa geração porque elas também tiveram a sorte de protagonizar a única revolução bem-sucedida do século 20, que foi a Revolução Feminina.

Foi a geração que rompeu tabus, quebrou barreiras, enfrentou preconceitos, chutou a porta do mercado de trabalho e ganhou o próprio dinheiro, tomou pílula e dominou o ciclo reprodutivo, ou seja, ficou independente e dona do próprio corpo.

Mas essa mulher chegou à maturidade e, mais uma vez, não gostou do que viu. Assim como 30 anos antes não aceitou o papel secundário que lhe era destinado na sociedade, e fez uma revolução, não aceitou agora a vala da invisibilidade, a irrelevância e a falta de respeito que cabe às pessoas maduras no Brasil de hoje.

São mulheres experientes, qualificadas, competentes, bonitas, ousadas, cheias de energia e seguras de si. Nada daquele tipo estereotipado que se vê na mídia. Não é a senhorinha infantilizada saltitante na poça d’água, não é a madura periguete que usa a roupa da filha retratada com deboche nas novelas.

Num congresso como o CONARH, mais feminino do que masculino, Marcia ressalta que não há nenhuma crítica a essas mulheres e suas escolhas. Liberdade foi a maior conquista dessa geração. Portanto, defendemos o direito de saltar quantas poças d’água quisermos e escolhermos a roupa que nos faz feliz.

O problema é a redução da representação, é a cortina de invisibilidade que desce e esconde esse contingente precioso de talento. Onde estão todas as outras? Onde está o universo de diversidade que está entre esses dois tipos?

Outro perigoso estereótipo está naquela figura que representa a entrada dos 60 anos, a oficialização da velhice dependente, fraca e curvada, apoiada na bengala, que só reforça a ideia de que o envelhecimento é uma ruína a ser temida. Aos 60 anos!

Mais uma vez estou falando de representação. A geração baby boomers é a primeira a lutar pelos direitos dos idosos que realmente precisam de amparo e proteção, em um país que envelhece a passos rápidos sem estar preparado para uma mudança demográfica tão radical. Ao mesmo tempo, não consegue se ver representada por essa imagem débil que fazia sentido na metade do século 20, mas não condiz com os sexagenários vibrantes, autônomos e capazes do século 21.

Essa geração também é a mais sortuda porque vive uma mudança de Era. Éramos jovens na era industrial do século 20, em que o corpo era o capital de trabalho, e entramos na maturidade justamente quando o mundo evolui para a era do conhecimento, em que a mente é o capital e é o que nós temos de melhor. O corpo não tem mais o mesmo vigor, mas a mente está a mil por hora, cheia de possibilidades, sabedoria e visão de futuro.

Não, não estamos ultrapassados.

Não, não somos incapazes de inovar.

Não, não queremos ir para casa “descansar”.

Queremos muito da vida. Temos dinheiro, desejos, cultura e experiência. Por que as empresas têm tanto medo de nós?

Por que se fecham quando chegamos aos 60 anos?

Por que não conseguem criar produtos e serviços para esse público, além de remédios?

Por que ignoram esse banco de talentos que está escondido atrás da cortina negra da invisibilidade?

Muito se fala em diversidade nas empresas. Diversidade sexual, diversidade étnica e diversidade racial. Mas se fala pouco na diversidade etária. Por que? É um desperdício!

Esse é mais um tabu que precisa ser quebrado. A visão retrógrada que se tem da idade. Envelhecer é um privilégio. Significa que tivemos a sorte de não morrer jovens.

Os baby boomers, aos 20, pensavam que iam morrer aos 60. Sabem agora, aos 60, que têm pelo menos uns 30 anos de vida ativa pela frente e podem fazer desse tempo um período muito bom. Toda essa riqueza deveria ser cobiçada pelas empresas, que lucrariam com tanto talento, saber e experiência acumulados.

Mas a realidade é que não o fazem. Ainda não entenderam que o mundo do século 21 é outro. A sociedade está mudando rápido, os indivíduos estão transformando velozmente a própria vida e vão passar na frente, deixando os cegos na poeira.

Concluindo sua apresentação no CONARH, Marcia diz que os baby boomers são a primeira geração mais velha a servir de modelo para uma mais nova. Sempre foi o contrário, a geração mais velha se projetava na mais nova. Hoje, os jovens olham para frente e não têm mais medo do que veem. Sabem que podem ter uma vida saudável, ativa e feliz por muito, muito tempo.

Não é uma gigantesca revolução?

 

Resultado de imagem para marcia neder

 

Marcia Neder
Jornalista e autora do livro “A Revolução das 7 Mulheres”